Iniciamos o ano da editora com uma animação muito inspiradora:
Obrigado Julian por ter enviado a animação.
Viva os livros!
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Psicologia da Composição
1.
Saio de meu poema
como quem lava as mãos.
Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.
Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;
talvez, como a camisa
vazia, que despi.
2.
Esta folha branca
me proscreve o sonho,
me invita ao verso
nítido e preciso.
Eu me refugio
nesta praia pura
onde nada existe
em que a noite pouse.
Como não há noite
cessa toda fonte;
como não há fonte
cessa toda fuga;
como não há fuga
nada lembra o fluir
de meu tempo, ao vento
que nele sopra o tempo.
3.
Neste papel
pode teu sal
virar cinza;
pode o limão
virar pedra;
o sol da pele,
o trigo do corpo
virar cinza.
(Teme, por isso,
a jovem manhã
sobre as flores
da véspera.)
Neste papel
logo fenecem
as roxas, mornas
flores morais;
todas as fluidas
flores da pressa;
todas as úmidas
flores do sonho.
(Espera, por isso,
que a jovem manhã
te venha revelar
as flores da véspera.)
4.
O poema, com seus cavalos,
quer explodir
teu tempo claro; rompendo
seu branco fio, seu cimento
mudo e fresco.
(O descuido ficara aberto
de par em par;
um sonho passou, deixando
fiapos, logo árvores instantâneas
coagulando a preguiça.)
5.
Vivo com certas palavras,
abelhas domésticas.
Do dia aberto
(branco guarda-sol)
esses lúcidos fusos retiram
o fio de mel
(do dia que abriu
também como flor)
que na noite
(poço onde vai tombar
a aérea flor)
persistirá: louro
sabor, e ácido
contra o açúcar do podre.
6.
Não a forma encontrada
como uma concha, perdida
nos frouxos areais
como cabelos;
não a forma obtida
em lance santo ou raro,
tiro nas lebres de vidro
do invisível;
mas a forma atingida
como a ponta do novelo
que a atenção, lenta,
desenrola,
aranha; como o mais extremo
desse fio frágil, que se rompe
ao peso, sempre, das mãos
enormes.
7.
É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.
São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.
É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavras.
É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza
da palavra escrita.
8.
Cultivar o deserto
como um pomar às avessas.
(A árvore destila
a terra, gota a gota;
a terra completa
caiu, fruto!
Enquanto na ordem
de outro pomar
a atenção destila
palavras maduras.)
Cultivar o deserto
como um pomar às avessas:
então, nada mais
destila; evapora;
onde foi maçã
resta uma fome;
onde foi palavra
(potros ou touros
contidos) resta a severa
forma do vazio.
João Cabral de Melo Neto
Saio de meu poema
como quem lava as mãos.
Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.
Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;
talvez, como a camisa
vazia, que despi.
2.
Esta folha branca
me proscreve o sonho,
me invita ao verso
nítido e preciso.
Eu me refugio
nesta praia pura
onde nada existe
em que a noite pouse.
Como não há noite
cessa toda fonte;
como não há fonte
cessa toda fuga;
como não há fuga
nada lembra o fluir
de meu tempo, ao vento
que nele sopra o tempo.
3.
Neste papel
pode teu sal
virar cinza;
pode o limão
virar pedra;
o sol da pele,
o trigo do corpo
virar cinza.
(Teme, por isso,
a jovem manhã
sobre as flores
da véspera.)
Neste papel
logo fenecem
as roxas, mornas
flores morais;
todas as fluidas
flores da pressa;
todas as úmidas
flores do sonho.
(Espera, por isso,
que a jovem manhã
te venha revelar
as flores da véspera.)
4.
O poema, com seus cavalos,
quer explodir
teu tempo claro; rompendo
seu branco fio, seu cimento
mudo e fresco.
(O descuido ficara aberto
de par em par;
um sonho passou, deixando
fiapos, logo árvores instantâneas
coagulando a preguiça.)
5.
Vivo com certas palavras,
abelhas domésticas.
Do dia aberto
(branco guarda-sol)
esses lúcidos fusos retiram
o fio de mel
(do dia que abriu
também como flor)
que na noite
(poço onde vai tombar
a aérea flor)
persistirá: louro
sabor, e ácido
contra o açúcar do podre.
6.
Não a forma encontrada
como uma concha, perdida
nos frouxos areais
como cabelos;
não a forma obtida
em lance santo ou raro,
tiro nas lebres de vidro
do invisível;
mas a forma atingida
como a ponta do novelo
que a atenção, lenta,
desenrola,
aranha; como o mais extremo
desse fio frágil, que se rompe
ao peso, sempre, das mãos
enormes.
7.
É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.
São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.
É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavras.
É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza
da palavra escrita.
8.
Cultivar o deserto
como um pomar às avessas.
(A árvore destila
a terra, gota a gota;
a terra completa
caiu, fruto!
Enquanto na ordem
de outro pomar
a atenção destila
palavras maduras.)
Cultivar o deserto
como um pomar às avessas:
então, nada mais
destila; evapora;
onde foi maçã
resta uma fome;
onde foi palavra
(potros ou touros
contidos) resta a severa
forma do vazio.
João Cabral de Melo Neto
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quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Novo zine da BOBOgraphics
Confira esta prazerosa publicação editada por M.Guerrix & Virginia Rodrigues: BOBOunaCASArolante
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terça-feira, 1 de novembro de 2011
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
AS MELHORES BIBLIOTECAS DO MUNDO
>>> escritos de Barateza Duran segundo o método espasmódico dialético <<<
Antes de tudo, o que há de mais importante em uma biblioteca é ter acesso a ela. Ou melhor, ter acesso aos objetos que fazem dela uma biblioteca, os livros (impressos em geral, na verdade). De nada adianta saber da magnitude das bibliotecas americanas, dos exemplares raros das bibliotecas francesas. Queremos livros para ler, para ver, manusear, carregar pra lá e prá e não passar nem das primeiras 10 páginas. Estamos falando de livros do cotidiano, livros banais, livros que são lidos, manuseados a exaustão, que serão reformados ou decompostos. Minha mãe me falou de um ditado suíço, onde se diz que livro bom é livro gasto, passado, destruído, pois isso nos mostra que ele foi lido e relido, diversas mãos e olhos e narizes passaram por ele. Não estou dizendo para jogar o livro no chão e pisar em cima, nem para você não ter um mínimo de cuidado com o objeto, só estou falando que livros, ao serem manuseados, se desgastam. Isso é normal. Todo cuidado é pouco.
Ao mesmo tempo, o fetiche do livro. Livros bonitos, bem editados. Livros raros, livros achados no chão empoeirado de um sebo qualquer do mundo, que se tornou uma jóia rara em sua coleção. Livros herdados de avós, pais, amigos, frutos de relacionamentos acabados. Livros roubados, emprestados e nunca devolvidos. Livros que você não empresta nem que lhe paguem. Livros de artista. Livros únicos. Cadernos. O que há neste objeto ancestral, nesta ferramenta perfeita, que tanto nos fascina? Não vou me arriscar a dar uma resposta definitiva para uma pergunta tão perigosa, há milhares de respostas, cada um com seus gostos, seus interesses, seus fetiches (os desinteressados por livros não tem vez aqui). Pessoas que colecionam livros e nada lêem e pessoas que lêem tudo e não tem um livro na estante. Não há regras, o fato é que os livros existem, uma infinidade deles, uma avalanche, um “Niágara de livros” para citar o Joseph Mitchell. E é por isso que existem bibliotecas.
Tendo em vista essas perspectivas, talvez contraditórias, é que estamos iniciando esta coluna com uma série de textos sobre as melhores bibliotecas do mundo. De forma completamente informal, eu, Barateza Duran, irei escrever as mais subjetivas opiniões possíveis sobre o tema aqui proposto.
As Melhores Bibliotecas do Mundo #1: bibliotecas de amigos
Já faz algum tempo, estava conversando sobre livros, bibliotecas, publicações, com a Virgínia Rodrigues e ela comentou que o futuro das bibliotecas estava nos acervos de amigos. Fiquei com esta afirmação na cabeça. Não sei quanto ao futuro, mas sei que as bibliotecas de amigos são, sem sombra de dúvidas, as melhores bibliotecas que existem. São de livre acesso e tem um ambiente agradável, geralmente acompanhado de um comentário acerca da obra, de recomendações e agrados em forma de piadas, cafés, biscoitos, cigarros, um copo de cerveja, uma conversa boba e uma promessa de voltar a se ver e de devolver o livro sabe-se lá quando.
Pode-se alegar que os acervos dessas bibliotecas são modestos, mas geralmente eles vêm acompanhados da vivência de seu dono, é um reflexo. Pessoas compram livros por necessidades distintas, seja por interesse (infinitos!), por estudos (quantos temas existem?), por fetiche. Sendo um amigo seu, é provável que você compartilhe afinidades com esta pessoa e que também tenha um interesse, mesmo que moderado, pelos interesses dela. São livros selecionados, você sabe a sessão da biblioteca que está freqüentando. Se juntar as bibliotecas de todos os meus amigos, poderia organizá-las em prateleiras segundo seus nomes, pois os conhecendo, sei que livros encontrarei ali. É muito simples e bastante prático. Não há armários de pesquisa por nome e sobrenome, temas relacionados, ano de publicação. Basta uma visita, um telefonema ou um email.
Esses acervos tão cativos e próximos guardam surpresas que nenhuma outra biblioteca do mundo pode proporcionar. Você pode ser surpreendido por um amigo que lhe empresta um livro, sem que você pedisse, nem fizesse idéia de que ele o possuísse, apenas porque como amigo, te conhece , sabe de seus interesses, dos seus gostos e às vezes, sabe até sobre seus defeitos ou dificuldades e pode tentar te ajudar com uma leitura certeira. Sem dúvida um serviço exclusivo das bibliotecas de amigos.
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quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Infinínfimos XI - Revisitando Haroldo
Nunca fui muito com a cara do Haroldo de Campos, assim, como personagem. Primeiro por conta do próprio Concretismo, já que “poesia e matemática”, “poesia tecnológica”, “poesia e Arnaldo Antunes” e etcetera nunca me pareceram boas combinações. Sou de outra geração e por isso criei vínculos afetivos mais viscerais com escritores que eu considerava mais “apaixonados”. Mas o fato é que como todo jovem aspirante a artista, acabei tendo que engolir mais tarde a farofa da minha empáfia. Porque Haroldo não foi só um velho barbudo que arrotava em sânscrito; foi um militante feroz e um construtor empedernido da identidade cultural brasileira. Num Brasil tacanho, submisso e colonizado, a figura de Haroldo se transfunde numa espécie de demiurgo antropofágico contra os Zé Cariocas da arte e os seus brocardos tupiniquins. Haroldo era um Oswald ajuizado; seu complemento. Quer algo mais pícaro? Mais rebelde? Ao invés de levar um chicote para a porta da Academia Brasileira de Letras (e tentar lascar um vergão mundano na bunda dos imortais), Haroldo levava sua língua ferina para os Estados Unidos, e ia pra dizer que aqui não tinha só macaco, onça pintada e samba. Ele carregava sua língua-chicote pra falar de Sousândrade em Chicago. E enquanto isso traduzia Homero, Ezra Pound, Maiakovski, Joyce, Mallarmé, Dante, Octavio Paz e mais uma patota da grossa. Como disse o To Zé, o Haroldo “um dia, guiava Dante Alighieri para o limbo da língua portuguesa; no outro, atacava o hebraico para roubar uma jóia da Bíblia." Não julgo o irmão Campos no todo biográfico, mas tão só nas partes que me tocam e que conheço um pouco mais. Na semana passada comprei e li seu livro “O Seqüestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O caso Gregório de Matos”, onde ataca a visão do monstro sagrado Antonio Candido, para o qual a Formação da Literatura Brasileira começa pra valer só a partir Arcadismo, desprezando o Gregório, desprezando o Pe. Antonio Vieira, desprezando, enfim, todo o XVI brasileiro. Haroldo diz que é justamente pela importância da obra de Candido que se faz “merecedora não de um culto reverencial, obnubilante, mas de discussão crítica que lhe responda às instigações mais provocativas”. Essa posição marca o estilo de Haroldo de Campos, um apaixonado - a seu modo - pelos desafios intelectuais que ajudaram a repensar nossa história e nossos cânones; resgatando, descobrindo e traduzindo autores que talvez não tivessem chegado até hoje às nossas livrarias, dada a vocação de puta e puramente comercial das nossas maiores casas editoriais, com algumas agradáveis exceções. Haroldo fez com Gregório de Matos o que os espanhóis da Geração de 28 fizeram com Luis de Góngora, talvez o maior dos injustiçados de todo o período barroco, mas brilhantemente recuperado e reinterpretado por Dámaso Alonso, Garcia Lorca, Gerardo Diego e toda essa turma monstruosa. Por aqui, estávamos todos abaixando a cabeça pro mestre Candido, como se o professor não fosse um professor, mas um xamã, enquanto o Boca do Inferno era mandado - no grito - pro limbo da nossa historiografia literária. Por isso, acho que a minha antipatia pelo Haroldo se foi, como também se foi aquela primeira empáfia da juventude, onde tudo se resumia ao gosto mais imediato e desinteressado. Depois que me interessei por Haroldo, compreendi que estar certo não é tão importante quanto esta arte dialética de criar tensões; saber provocar na hora certa e, na hora certa, reconhecer que estávamos errados. Por um Brasil menos saci e culturalmente asmático, é preciso buscar entender o que de tudo isso que temos lido e vivido é – concretamente – brasileiro.
Evoé!
Marcelo Reis de Mello.
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quarta-feira, 19 de outubro de 2011
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Um homem sem importância
![]() |
| Alberto Salvá |
O Brasil perdeu ontem um dos seus melhores homens e um dos seus maiores cineastas. Alberto Salvá dedicou a vida ao cinema brasileiro, mesmo depois de tantos revezes que o deixaram pobre e amargurado na velhice.
A cultura no Brasil leva um coice com a morte desse homem. Mas a cultura no Brasil não é mais do que a carcaça de um touro morto perdido no mato, onde apenas as moscas conseguem botar seus ovos.
Lembro do Salvá como um senhor carinhoso e sensível, que me estendeu a mão num momento difícil da vida, quando me mudei pro Rio sem trabalho e sem rumo. Fiz seu curso de roteiro pra cinema na esperança de não enlouquecer dos excessos tropicais, mas ganhei muito mais do que sanidade; ganhei um amigo e um exemplo de homem. Acho que os homens sem importância desse país se reconhecem. Alguns se abraçam. Obrigado por aquele abraço, Salvá.
Antes de conhecê-lo já tinha visto seu filme "Um Homem sem Importância", uma peça belíssima e com traços autobiográficos, onde o protagonista vivido por Oduvaldo Viana Filho - o Vianinha - perambula pela cidade em busca de um trabalho e de uma razão qualquer para a vida. É um dos filmes mais incrivelmente sensíveis já feitos no Brasil; das coisas mais bonitas que já vi na vida. Sinto muito que nosso país não valorize a sensibilidade como valoriza o futebol. Sinto muito que tão pouca gente tenha conhecido esse gênio, num país de 200 milhões de ignorantes e alguns poucos loucos solitários meio nietzscheanos, meio quixotescos.
Espero que os colegas cineastas e os meios de comunicação prestem as devidas homenagens a esse homem sem importância, morto entre baratas kafkianas e seres do subterrâneo. Espero que o sol do Rio não corroa a sombra por onde os gênios como Salvá sempre estiveram caminhando, com suas patas e pastas debaixo do braço, seus sorrisos doídos, suas cáries, seus projetos frustrados pela incompetência dos gestores culturais que pululam nessa pátria de moscas e chacais.
Saravá, Salvá. Saravá.
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quinta-feira, 13 de outubro de 2011
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
perhaps, perhaps, perhaps
Or perhaps what matters is not the human pain or joy at all but, rather, the play of shadow and light on a live body, the harmony of trifles assembled on this particular day, at this particular moment, in a unique and inimitable way.
Vladimir Nabokov.
...
...
sábado, 1 de outubro de 2011
BobO bobo BOBO bObO
Mayla Guerrix. Antropofagia do olhar. Arcimboldo. Hábito. Habitar. Colibrilhos. O quanto há de nós em tudo? O quanto de tudo em nós?
A tribo L´omo no blog da Bobo Graphics, clicando na imagem.
Grande garimpo de Mrs. Guerrix.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Infinínfimos IX - O preço da verdade
O preço da verdade é a tristeza. Não fosse assim, as melhores obras de arte nasceriam em meio à narcose dos dias de sono, sob o sol dessa rotina cataléptica das cidades. Mas não é isso o que acontece, embora muitos finjam profundidade e outros tantos procurem (do interior da caverna de Platão) retratar com alguma lucidez a tragédia da solidão humana.
Eu me perguntava, enfim, por que a tristeza e a fragilidade parecem ser os sentimentos mais genuinamente artísticos ou aqueles que me tornam mais disponível – tanto como possível criador como enquanto leitor ou espectador de outras obras. A resposta, me parece, vem pelo fato de que a presença da morte (e a certeza da iminência da morte) dilui o embotamento dos nossos olhos televisivos; dilacera o tecido linear dos dias e noites que se sucedem, idênticos.
Talvez alguém possa argumentar que estou resumindo a arte ao sentimento do sublime e, possivelmente, com alguma razão. Mas sei o quanto é possível criar objetos artísticos sob outras influências, menores. Estou apenas lembrando a questão nada original de que, quando algo em nossas vidas nos põe em confronto direto com nosso fim - nossa fragilidade - somos capazes de notar beleza em detalhes que até então pareceriam corriqueiros.
Lembro perfeitamente que durante uma viagem de Lucy (no meio de uma tremenda bad trip) consegui compreender com as vísceras certos poemas que até então não faziam tanto sentido para mim, como por exemplo “Os Sinos” de Allan Poe. - O silêncio eterno desse espaço infinito me apavora, escreveu Pascal.
Mas não se trata só do sublime. Quando eu soube que o câncer da minha avó paterna podia ter se espalhado, senti-me confrangido e impotente, mas não tive nenhum acesso de incrível lucidez ou treva. Foi o ponto de apenas deixar-me sensibilizar pela fragilidade que há em tudo. Escrevi um poema consternado sobre o bondinho que tombou no bairro de Santa Teresa, há um mês. Li com olhos líquidos um livro do Menotti Del Picchia chamado Juca Mulato, porque minha avó me o havia presenteado e até mesmo marcado os versos preferidos de seu pai, meu bisavô Geraldo.
Mas não se trata só do sublime. Quando eu soube que o câncer da minha avó paterna podia ter se espalhado, senti-me confrangido e impotente, mas não tive nenhum acesso de incrível lucidez ou treva. Foi o ponto de apenas deixar-me sensibilizar pela fragilidade que há em tudo. Escrevi um poema consternado sobre o bondinho que tombou no bairro de Santa Teresa, há um mês. Li com olhos líquidos um livro do Menotti Del Picchia chamado Juca Mulato, porque minha avó me o havia presenteado e até mesmo marcado os versos preferidos de seu pai, meu bisavô Geraldo.
A fragilidade, a morte. Tanto que o principal responsável por eu ter começado a escrever poemas foi um menino chamado Rodrigo, irmão do meu amigo Ricardo, que escreveu um livro de poesias chamado colibrilhos&colibreus, antes de morrer aos 24 anos (eu estava pelos 20). Nunca conheci o Rodrigo, mas minha ligação foi tão sincera que pela segunda vez gravei um cd com seus poemas, agora produzido pela nossa editora. Afinal de contas, esse estar por um fio nos humaniza; revela-nos através da finitude, alguma verdade. E o preço da verdade é a tristeza.
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sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Octavio Paz
Movimiento
Si tú eres la yegua de ámbar
yo soy el camino de sangre
Si tú eres la primera nevada
yo soy el que enciende el brasero del alba
Si tú eres la torre de la noche
yo soy el clavo ardiendo en tu frente
Si tú eres la marea matutina
yo soy el grito del primer pájaro
Si tú eres la cesta de naranjas
yo soy el cuchillo de sol
Si tú eres el altar de piedra
yo soy la mano sacrílega
Si tú eres la tierra acostada
yo soy la caña verde
Si tú eres el salto del viento
yo soy el fuego enterrado
Si tú eres la boca del agua
yo soy la boca del musgo
Si tú eres el bosque de las nubes
yo soy el hacha que las parte
Si tú eres la ciudad profanada
yo soy la lluvia de consagración
Si tú eres la montaña amarilla
yo soy los brazos rojos del liquen
Si tú eres el sol que se levanta
yo soy el camino de la sangre.
yo soy el camino de sangre
Si tú eres la primera nevada
yo soy el que enciende el brasero del alba
Si tú eres la torre de la noche
yo soy el clavo ardiendo en tu frente
Si tú eres la marea matutina
yo soy el grito del primer pájaro
Si tú eres la cesta de naranjas
yo soy el cuchillo de sol
Si tú eres el altar de piedra
yo soy la mano sacrílega
Si tú eres la tierra acostada
yo soy la caña verde
Si tú eres el salto del viento
yo soy el fuego enterrado
Si tú eres la boca del agua
yo soy la boca del musgo
Si tú eres el bosque de las nubes
yo soy el hacha que las parte
Si tú eres la ciudad profanada
yo soy la lluvia de consagración
Si tú eres la montaña amarilla
yo soy los brazos rojos del liquen
Si tú eres el sol que se levanta
yo soy el camino de la sangre.
* Oferecemos este poema à preciosa Virginia Rodrigues e suas imagens que nos inspiram todas as semanas aqui na Cozinha Experimental.
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